sexta-feira, 5 de abril de 2013

SERAPIÃO

 O motivo pelo qual ele se casara era mais do que outra coisa, para ter um filho. A possibilidade de um pequeno que herdasse a sua cara, o seu jeito, consumia-lhe a imaginação. "Sangue do meu sangue, isso sim é que é titulo de romance". E idealizara sua história assim: Uma boa esposa e um sucessor que desse continuidade à sua saga, ah, ah, ah, que balela, ele queria mesmo era um filho que se tornasse doutor, que acabasse com essa sina de família simples que ele já não aceitava mais; uma família de operários, faxineiros, costureiras, domésticas, chega!  Seu filho não! Ele seria um doutor e para isso nasceria homem, sim, que graça teria uma filha? Ela não perpetuaria o nome dele. Na hora do parto de sua esposa, tudo isso passava por sua cabeça. Todos disseram que ele desmaiaria pois, naquele tempo, era incomum o pai assistir ao nascimento do filho. Mas ele queria ter certeza que seria homem. Teria que ser homem. Ele sequer cogitava sobre outra possibilidade. E se formaria doutor.
 Chegou a hora extrema. Seu filho vinha à luz e a parteira o depositou em suas mãos enquanto apanhava a tesoura esterilizada em água fervente, claro que depois de praticamente ele beijar os pés da parteira pedindo  por favor a ela, que não achava seguro entregar o bebê antes do corte do cordão e da primeira limpeza. As lágrimas romperam quando ele viu aquela carinha minúscula, olhos abertos, pupilas como duas pequeninas jabuticabas, boquinha como um pequenino rubi, fazendo bico para...chorar! Segurou o pequeno para que a
parteira cortasse o cordão e o entregou aso cuidados dela.
 Ele saiu para fazer o registro de nascimento do bebê naquela cidade pequena onde se inaugurara, fazia um mês, o primeiro tabelionato, e olha que lá se iam 30 anos de fundação daquele município. No caminho viu um ipê rosa florido, lindo..."meu filho poderia se chamar Flor, Dr. Flor...não! Isso é nome de menina, iam chamá-lo de florzinha...não! Meu filho vai ser macho, muito macho, macho mesmo!"
 O caminho para o cartório não era tão longe se ele tivesse um cavalo, mas ele se acostumara a andar e andando ia pensando: Que nome dar ao meu filho.
 Um índio- havia uma aldeia ali perto- vinha em sua direção, ele parou o índio e perguntou:
- Por favor, como vocês põe nome nos seus filhos?
- Curumim?
-Isso, curumim.
-Noss tribo da nom curumim igual de pai do pai e cunhatã igual mãe da mãe.
-Nome dos avós? Meu pai se chamava Zózimo e minha sogra, argh..., se chama Ambrosiunta.
-Muito obrigado, disse ele e o índio respondeu ao agradecimento à sua maneira e se foi.
E ele se pôs a pensar:
-Nome de avós, só em outra encarnação. Nome feio no meu filho, não!
Entrou no cartório pensando alto:
-Meu filho será doutor, meu filho será doutor. Mas e se ele for pião?
 O escrivão pediu o nome da criança:
-Senhor, eu não tenho o dia todo. Olha aí, já está formando fila!
 Ele deu um papel ao escrivão com o sobrenome, mas quanto ao prenome, ele queria pensar mais um pouco. E pensava :
-Meu filho será doutor ou será pião, será doutor, ou será pião.
E pensando alto, repetiu:
-Será doutor ou será pião, será doutor ou será pião!
 O escrivão, só entendendo a última expressão, sacramentou o nome na certidão.   
 E então pela impaciência de um escrivão mal humorado e a ideia fixa de um simples pai que queria o melhor para o seu primeiro filho, o registro de nascimento da criança confirmou o nome:
 Serapião Catando Aparas.

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