sábado, 13 de abril de 2013

ASPASIA

 Parecia que eles haviam se conhecido para brigar. A impressão que dava, era o de um encontro de dois adversários e não de duas pessoas que se apaixonaram. E brigavam por infantilidades como: opiniões sobre personagens e tramas de novela, de filmes, gosto por filmes, preferências de vestuário, conclusões a respeito      de noticiários, protagonistas e coadjuvantes dos mesmos noticiários, divergências políticas: ela era psdebista ele petista, esportivas: ela torcia pelo corinthians e ele pelo palmeiras, religiosas: ela era umbandista e ele protestante. Em resumo: em nada concordavam, contudo se amavam profundamente, quando se separavam,  adoeciam literalmente e só recuperavam a saúde quando faziam as pazes. E que pazes! Se existe paixão avassaladora, aquele era o exemplo mais completo. Os dois se arrebatavam um com o outro, perdiam o sentido do mundo parecendo um só ser, para começarem a brigar de novo. As famílias nem opinavam mais, tinham esgotado todas as suas intercessões. Da parte dela, fizeram entregas a Iemanjá  trabalhos com pomba-gira, com as correntes dos caboclos, pretos-velhos, baianos, ciganos, fizeram banhos de sal grosso e de ervas, descarrego com incenso, pipoca, consultaram pais de santo, mães de santo, babalorixás, búzios, cartas.... Da parte dele fizeram vigílias, jejuns, unções, não descuidaram dos dízimos e ofertas, deram testemunhos, foram nas marchas para Jesus, consultaram presbíteros, pastores, bispos, irmãos com dons de visões de orações... nada adiantou! Uma coisa podiam observar acertadamente, eles, apesar de todas essas diferenças e contendas, tinham nascido um para o outro, porque nunca namoraram antes de se conhecer e quando ouviam opiniões sobre procurarem se relacionar com outras pessoas, tinham nojo. Só de pensar no cheiro, na pele, na boca de outras pessoas, perdiam até o apetite. E isso acontecia da mesma maneira com os dois, ele jamais olhara e olhava para outra mulher, por mais formosa e bela que fosse, se estivesse de biquíni ou roupas íntimas piorou, ele virava a cara. Ela por sua vez, não via graça e nem comentava sobre galãs de filmes e novelas porque quando assistia, só enxergava nas tramas românticas ela mesma e seu amado.
 Certa vez, de tanto sofrimento da família com tanta briga, a própria família se entendeu, e fizeram os dois concordarem em se separar, de corpos e de localidade. Mandaram ele, que adorava o frio, para o Rio Grande do Sul e ela que amava o calor para o Ceará. Com uma semana de separação, cada um em cada extremo do Brasil, os dois, simultaneamente entraram numa crise convulsiva, foram internados ao mesmo tempo, ele num hospital no sul, ela no norte. Cada um só falava o nome do outro, os médicos responsáveis por cada um deles, foram unanimes: eles tinham que se encontrar. Numa decisão médico judicial jamais tomada para salvar duas vidas, dois jatos UTI foram mobilizados, o casal tinha pouco tempo de vida e no aeroporto de Campo Grande, mais ou menos a meia distancia de onde os dois estavam, os aviões aterrissaram quase que na mesma hora. Ao aproximarem a duas macas, com monitores em cada um, parafernália de soros, sondas e todo equipamento necessário para manter vivas duas vidas por um fio. Pois bem; à simples aproximação das duas macas, os dois, que já estavam em coma, despertaram e em delírio clamavam ao mesmo tempo:
-Eu sei que ele está aqui...
-Eu sei que ela está aqui...
 Os dois foram imediatamente desligados dos aparelhos e afins e internados em uma enfermaria em Campo   Grande mesmo, com as camas uma ao lada do outra e de mãos dadas, constando esse item na prescrição médica de ambos.
 Tiveram alta, só paixão, voltaram para suas casas, mas se viam todos os dias, se recuperaram, amor mais doce que o de Romeu e Julieta e..., voltaram a brigar. E brigaram por que ele olhou para alguém, mas ele não olhava para mulher nenhuma, e brigaram por que ela deu atenção demais para alguém, mas ele era irmão dela...
 Um dia, a grande descoberta: gravidez. Mas continuaram  brigando. Antes do parto, continuaram brigando. Após o parto, continuaram brigando. A sorte maior era a de que apesar das intensas brigas, nunca houve a mínima menção, de qualquer um dos dois a qualquer intenção de agressão física. Eram total e completamente avessos a toda forma de violência corporal, mas verbal, definitivamente, não. Mesmo assim, casaram-se, compraram uma casa e foram morar juntos.
 A pequena, assim era chamada a filha dos dois, completara três anos de inteligencia precoce. Já falava quase tudo e os erros de dicção e de vocabulário que cometia eram inerentes à sua idade e encantadores.
 Numa determinada ocasião, a pequena estava em companhia de sua avó materna e perguntou a ela:
-Bobó, como papai e mamãe vão acabá biga?
-Ô, meu amor, seus pais vão acabar de brigar quando fizerem as pazes!
-Só, bobó?
-Só, minha jóia.
-Eu vô fazê eles pará biga.
-Deus te ajude anjinho, porque nossas famílias já perderam juventude e saúde tentando.
 Em casa os dois se altercando e a pequena olhando. Pararam então de se falar. Ficaram cada um dando atenção à pequena a seu turno porém sem trocarem uma palavra sequer. A menina, triste, ela olhando pela janela e ele olhando para a televisão. A criança se colocou bem no meio dos dois e disse:
-Papai, mamãe, faiz aspasia?
 Os dois se olharam, olharam para a filha e acharam aquilo lindo. Perguntando em uníssono:
-Repete, amor!
 Ela olhou para a mãe:-mamãe; olhou para o pai: -papai, faiz aspasia ces dois?
 O casal se deu conta que, por causa das brigas, não tinham nem cogitado em dar um nome á sua filha. Os dois se ajoelharam, beijaram a pequena regando-a a lágrimas de emoção e desde então, nunca mais brigaram. 
 Aquela família, agora, completamente feliz, ganhou a paz, com a chegada de um pequeno anjo que recebeu um pitoresco nome: Aspasia.    
   

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