terça-feira, 19 de março de 2013

ORCELINA

   Um seresteiro romântico fanho e um pouco gago, apaixonou-se por aquela que ele dizia ser o amor de sua vida. Para impressioná-la, ele sempre que podia, levava seu violão, eterno companheiro, ao pé da janela de sua musa e inspiradíssimo e sem importar-se com as chacotas de quem ouvia - pois julgava ser despeito de quem não valorizava o romantismo - cantava serestas à sua maneira, ou seja, trocando certas letras e palavras.
   Embora confundisse as letras das músicas como também pronunciasse errado alguns fonemas, era extremamente virtuosístico em suas seis cordas e afinadíssimo no canto, dono de uma emissão vocal ao mesmo tempo doce e encorpada envolvida num timbre de singular personalidade. Mesmo assim, os opositores envolvidos no sarcasmo gratuito, riam e faziam gracejos, parodiavam seus fraseados e ridicularizavam sua espontaneidade, manifestações que jamais o desconcentravam, porquanto sua entrega direcionada à mulher dos seus sonhos o isolava de qualquer perturbação externa.
  O pai da moça se irritava, a mãe advertia; ”violão é coisa de vagabundo”; mas, na verdade, a musa se enternecia. Era daquelas que se apaixonam quando ficam com dó, já não esperando a hora de vê-lo aparecer abaixo de sua janela. Ela julgava aquela demonstração de amor tão pura, que se ele fizesse um pedido, a qualquer momento, entregar-lhe-ia o coração sem pensar duas vezes.
   Uma tarde, ao ouvi-lo cantar, a moça jogou um aviãozinho de papel que, certeiramente cravou-se na boca do violão entre as cordas. Ele, mais do que depressa, abriu o bilhete no qual estava escrito: "-Vá embora, pois meu pai está para escorraçá-lo daqui! Amanhã às 16h00, espere-me na praça." 
    Na tarde seguinte, no horário marcado, encontraram-se e seguiram até um lago paradisíaco com pequena cachoeira que existia na cidade. Ante o leito do lago, tiraram as roupas, nadaram gostosamente até a cachoeira e sorveram de sua água límpida, mineral, de sabor sem igual e, inspirados pela exuberante natureza que os cercava se abraçaram e se amaram da maneira mais doce, terna e vigorosa como nunca se viu. Seus corpos se integraram de forma que inexistiam ali como seres individuais, mas como apenas um ser, na troca de prazer e êxtase em completa assimilação de um pelo outro.
    O seresteiro já se apresentara nos circos e parques que se revezavam em espaços da cidade e tendo chamado a atenção para seus dons artísticos de estilo inimitável, conseguira patrocínio da prefeitura que muito generosa, lhe conferira o título de "músico mor", pois quando não cantava, desfilava seu repertório de solos violonísticos com a virtuosidade de um solista impecável quando certa feita interpretara o hino municipal de maneira clara, de fraseado musical límpido e sonoramente impressionante. Com o numerário que ganhara e ganhava orgulhoso, premeditara a sua futura união e comprara uma casinha branca e singela, ao pé da serra, para acomodar o seu tesouro de amor.
   Com a descoberta da gravidez e a expulsão da moça de casa pelo pai, sob as lágrimas inconsoláveis da mãe, o músico a recolheu em sua casa já montada, orgulhoso e não cabendo em si de felicidade, tendo junto dele o seu amor esperando o seu descendente.
   A mãe do artista, com habilidade de excelente parteira, foi chamada às pressas para trazer à luz o bebê daquele casal feliz e, após os cuidados e procedimentos e com a criança tomando seu primeiro alimento no seio materno, o pai já articulava a escolha do nome daquela que passara ser, a partir de sua mãe, a terceira mulher mais importante de sua vida. Então teve uma idéia; correu ao canto da sala, e voltando com o violão em punho, passou a experimentar o acompanhamento de algumas canções com nome feminino e em resposta, a mãe de sua filha ia reprovando cada sugestão.
       - Ãmargãlena... o seu preito anpercebeu...
       - É Madalena, meu amor e ela não gostou, nem eu.
       - Come que ce sãbe que ela não gostô?
       - Ela está querendo chorar, meu lindo.
       - Otra, intão:
       - Luz ciãna... Luz ciãna...só riso nas minina, dos zóio nus mar...
       - É Luciana, e ela está chorando!        
       - Discurpa. Hamm... tá bom. Ôtra:
- Latrina, Latrina serena ocê si isprintô...Latrina ocê faiz dei tudo mais faiz um favô...
       - Pára, a menina está berrando, e pelo amor de Deus. Não é Latrina serena é Marina morena!
       - Discurpa aí. Dessa veiz vai:
       - Orcelina mais qui dimais... Orcelina, sim... Sonda nus mar damor qui prantô ni mim...
       - Não é Orcelina, é você é linda, do Caetano Veloso, mas olha, ela parou de chorar, está rindo, gargalhando. Como pode uma recém nascida gargalhar, isto é incrível!
       - É qui ela iscolheu o nome. É Orcelina!
       - Está bem, que seja Orcelina, pois não aguento mais! Tudo está perfeito. Só falta a reconciliação com meus pais.
       - Isso tãmem vai cê cum música. Cumé u nomi di seu pãi?
       - Pedro.
       - I di suã mãe?
       - Amélia.
       - Sem probremã:
- Dispara Pedro Pedro dispara esse Pedro é disparada... e Camélia qui é das
muié das verdadi...Camélia num tinha melhor validade...
      - Chega! Amor, deixe como está. Vamos encontrar outra maneira. Com essas músicas, desse jeito, nunca.
- Mais pruquê meu bém?
- Pruquê, quer dizer, porque?
- É, pruquê?
- Por que só por Jesus, viu!

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ficou GENIAL!!! O seresteiro é mesmo um amor...

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  3. S E N S A C I O N A L .......ameiiiiiiiii
    Meus Parabéns!!!!
    O seresteiro é "do Peru!!!" kkkkkk
    bjos

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