Um seresteiro romântico fanho e um pouco gago, apaixonou-se
por aquela que ele dizia ser o amor de sua vida. Para impressioná-la, ele
sempre que podia, levava seu violão, eterno companheiro, ao pé da janela de sua
musa e inspiradíssimo e sem importar-se com as chacotas de quem ouvia - pois
julgava ser despeito de quem não valorizava o romantismo - cantava serestas à
sua maneira, ou seja, trocando certas letras e palavras.
Embora confundisse as letras das músicas como também pronunciasse
errado alguns fonemas, era extremamente virtuosístico em suas seis cordas
e afinadíssimo no canto, dono de uma emissão vocal ao mesmo tempo doce e
encorpada envolvida num timbre de singular personalidade. Mesmo assim, os
opositores envolvidos no sarcasmo gratuito, riam e faziam gracejos,
parodiavam seus fraseados e ridicularizavam sua espontaneidade, manifestações
que jamais o desconcentravam, porquanto sua entrega direcionada à mulher dos
seus sonhos o isolava de qualquer perturbação externa.
O pai da moça se irritava, a mãe advertia; ”violão é coisa
de vagabundo”; mas, na verdade, a musa se enternecia. Era daquelas que se
apaixonam quando ficam com dó, já não esperando a hora de vê-lo aparecer
abaixo de sua janela. Ela julgava aquela demonstração de amor tão pura, que se
ele fizesse um pedido, a qualquer momento, entregar-lhe-ia o coração sem pensar
duas vezes.
Uma tarde, ao ouvi-lo cantar, a moça jogou um aviãozinho de
papel que, certeiramente cravou-se na boca do violão entre as cordas. Ele,
mais do que depressa, abriu o bilhete no qual estava escrito: "-Vá embora,
pois meu pai está para escorraçá-lo daqui! Amanhã às 16h00, espere-me na
praça."
Na tarde seguinte, no horário marcado, encontraram-se e
seguiram até um lago paradisíaco com pequena cachoeira que existia na cidade.
Ante o leito do lago, tiraram as roupas, nadaram gostosamente até a cachoeira e
sorveram de sua água límpida, mineral, de sabor sem igual e, inspirados
pela exuberante natureza que os cercava se abraçaram e se amaram da maneira
mais doce, terna e vigorosa como nunca se viu. Seus corpos se integraram de
forma que inexistiam ali como seres individuais, mas como apenas um ser, na
troca de prazer e êxtase em completa assimilação de um pelo outro.
O seresteiro já se apresentara nos circos e parques que se
revezavam em espaços da cidade e tendo chamado a atenção para seus dons
artísticos de estilo inimitável, conseguira patrocínio da prefeitura que
muito generosa, lhe conferira o título de "músico mor", pois quando
não cantava, desfilava seu repertório de solos violonísticos com a virtuosidade
de um solista impecável quando certa feita interpretara o hino municipal de
maneira clara, de fraseado musical límpido e sonoramente impressionante. Com
o numerário que ganhara e ganhava orgulhoso, premeditara a sua futura
união e comprara uma casinha branca e singela, ao pé da serra, para
acomodar o seu tesouro de amor.
Com a descoberta da gravidez e a expulsão da moça de casa
pelo pai, sob as lágrimas inconsoláveis da mãe, o músico a recolheu em sua casa
já montada, orgulhoso e não cabendo em si de felicidade, tendo junto dele o seu
amor esperando o seu descendente.
A mãe do artista, com habilidade de excelente parteira, foi
chamada às pressas para trazer à luz o bebê daquele casal feliz e, após os
cuidados e procedimentos e com a criança tomando seu primeiro alimento no
seio materno, o pai já articulava a escolha do nome daquela que passara ser, a
partir de sua mãe, a terceira mulher mais importante de sua vida. Então teve
uma idéia; correu ao canto da sala, e voltando com o violão em punho, passou a
experimentar o acompanhamento de algumas canções com nome feminino e em
resposta, a mãe de sua filha ia reprovando cada sugestão.
- Ãmargãlena... o seu preito anpercebeu...
- É Madalena, meu amor e ela não gostou, nem
eu.
- Come que ce sãbe que ela não gostô?
- Ela está querendo chorar, meu lindo.
- Otra, intão:
- Luz ciãna... Luz ciãna...só riso nas
minina, dos zóio nus mar...
- É Luciana, e ela está chorando!
- Discurpa. Hamm... tá bom. Ôtra:
- Latrina, Latrina
serena ocê si isprintô...Latrina ocê faiz dei tudo mais faiz um favô...
- Pára, a menina está berrando, e pelo amor
de Deus. Não é Latrina serena é Marina morena!
- Discurpa aí. Dessa veiz vai:
- Orcelina mais qui dimais... Orcelina,
sim... Sonda nus mar damor qui prantô ni mim...
- Não é Orcelina, é você é linda, do Caetano
Veloso, mas olha, ela parou de chorar, está rindo, gargalhando. Como pode uma
recém nascida gargalhar, isto é incrível!
- É qui ela iscolheu o nome. É Orcelina!
- Está bem, que seja Orcelina, pois não
aguento mais! Tudo está perfeito. Só falta a reconciliação com meus pais.
- Isso tãmem vai cê cum música. Cumé u nomi
di seu pãi?
- Pedro.
- I di suã mãe?
- Amélia.
- Sem probremã:
- Dispara Pedro
Pedro dispara esse Pedro é disparada... e Camélia qui é das
muié das
verdadi...Camélia num tinha melhor validade...
- Chega! Amor, deixe como está. Vamos encontrar
outra maneira. Com essas músicas, desse jeito, nunca.
- Mais pruquê meu
bém?
- Pruquê, quer
dizer, porque?
- É, pruquê?
- Por que só por
Jesus, viu!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirFicou GENIAL!!! O seresteiro é mesmo um amor...
ResponderExcluirS E N S A C I O N A L .......ameiiiiiiiii
ResponderExcluirMeus Parabéns!!!!
O seresteiro é "do Peru!!!" kkkkkk
bjos